A expansão de Magic: The Gathering por meio da submarca Universes Beyond tem sido uma das estratégias mais audaciosas da Wizards of the Coast na última década. Desde seu lançamento em 2020 com pequenas parcerias, o programa ganhou escala com colaborações robustas envolvendo The Lord of the Rings, Final Fantasy, Marvel e Avatar: The Last Airbender. Essas franquias poderosas têm atraído atenção massiva, mas também levantado dúvidas legítimas quanto ao futuro da identidade original do jogo.
O sucesso comercial dessas colaborações tem sido inegável. A coleção Final Fantasy alcançou impressionantes US$ 200 milhões em vendas em apenas um dia, superando em receita o que The Lord of the Rings: Tales of Middle-earth levou seis meses para atingir. Já Tales of Middle-earth, até então, era o set mais bem-sucedido da história de Magic, confirmando a força do apelo de IPs icônicos dentro do universo do card game.
Essa expansão evidencia o dilema atual enfrentado pela franquia: como equilibrar a expansão com IPs externos — que atraem novos públicos –, sem alienar os jogadores de longa data que valorizam os mundos originais de Magic?
Expansão, dados e impacto real

As colaborações têm comprovado seu impacto positivo em números e em audiência. Conforme dados divulgados por Mark Rosewater, designer-chefe de Magic, os lançamentos de Universes Beyond em 2025 contribuíram significativamente para atrair jogadores que haviam se afastado — os chamados “lapsed players” — e mantiveram um alto índice de retenção, até maior que o de amadores que começaram a jogar recentemente.
Além disso, o público principal do jogo — jogadores já engajados — também é um forte consumidor dessas coleções. Rosewater destacou que esses jogadores gastam mais em Universes Beyond do que em sets tradicionais do Multiverso de Magic. Essa tendência é ainda mais clara quando se observa que sold-outs frequentes em eventos como a Comic-Con de San Diego eram visíveis em ações de marketing relacionadas à Marvel e a Avatar, demonstrando entusiasmo real e tangível.
No mercado secundário, tivemos também crescimento expressivo: o valor de revenda da versão Collector Box de Tales of Middle-earth subiu cerca de 70 % entre julho de 2024 e 2025, chegando a girar na faixa de US$ 900. Juntamente com isso, produtos como os decks Commander de Warhammer 40 000 registraram valorização intensa, com ganhos de até 278 % ano a ano no mercado.
Saturação, identidade e reações reais

Apesar do apelo comercial, a reação de parte da comunidade tem sido crítica. Em entrevista a veículos como a Polygon, Mark Rosewater reconheceu que “alguns jogadores não gostam” da abordagem de Universes Beyond, e chegou a citar comparações com o “Fortnite de papelão” como uma queixa recorrente na comunidade.
Comentários de jogadores veteranos expressam queixas não só com a identidade, mas com a frequência dos lançamentos. Um usuário no Reddit resumiu: “Eles estão gastando mais. O jogo está maior do que nunca e Tales of Middle-earth é o set mais popular de todos os tempos” — sinalizando entusiasmo, mas também um ritmo que incomoda. Outro chegou a pontuar: “Metade dos lançamentos do ano não são nem do IP de Magic — isso é meio decepcionante.”
Discussões mais incisivas também ecoam entre historiadores e influenciadores do meio. Sam Gaglio, do canal Rhystic Studies, questionou o risco de dissolver o espírito original de Magic diante da superposição de universos externos, indagando até que ponto a marca pode ser parâmetro para “Magic antes de se perder em meio a personagens de outros mundos”.
Outro ponto de tensão vem da infraestrutura de distribuição: lançamentos como o Secret Lair Marvel reproduzem a sensação de escassez proposital, gerando frustração entre jogadores que ficam com dificuldade de acesso ou dependem do mercado negro para adquirir as cartas mais desejadas.
Um equilíbrio necessário? O que dizem os próprios criadores

A Wizards of the Coast, por meio de Rosewater, defende que os produtos Universes Beyond atendem públicos distintos: jogadores que já estão, novos, os desinteressados e colecionadores — todos encontrando apelo nessa linha. Ainda segundo ele, a cadência atual de lançamentos da linha não é definitiva: “esta cadência não é para sempre. É para agora”, disse em resposta a preocupações da comunidade.
Além disso, em termos estratégicos, a empresa precisa balancear investimentos em licenciamento — que trazem retorno mas exigem tempo e recursos — com sua linha principal de mundos originais, sobre os quais têm controle pleno e sem custos extras.
Inovação com cautela
O fenômeno Universes Beyond é, indiscutivelmente, um caso de sucesso comercial e de expansão de audiência para Magic: The Gathering. As reações variam entre euforia, nostalgia e desconfiança — e isso é saudável. A longevidade do jogo dependerá da capacidade da Wizards de manter um equilíbrio: valorizar a criatividade e o multiverso de Magic, ao mesmo tempo em que explora com parcimônia parcerias de peso que tragam novos jogadores sem alienar os veteranos.
No fim, o desafio real é seguir inovando sem perder o que tornou Magic icônico — seu próprio multiverso, construído com originalidade, história e identidade.




