Gimli e os cabelos da Galadriel

Gimli e os cabelos da Galadriel

O reconhecimento e o presente de Galadriel a Gimli ajuda a exemplificar os valores de Tolkien e da Terra-Média, mais do que qualquer batalha.

Ao contrário das batalhes épicas e crises duradouras parecem indicar, a história da Terra-Média não é movida apenas por feitos heroicos, mas por escolhas íntimas. O destino do mundo muda quando alguém decide não tomar o que poderia tomar ou o contrário. A recusa de Galadriel ao Um Anel é um exemplo célebre, mas há outros momentos menos mais sutis que revelam a mesma profundidade.

É nesse terreno sutil que se encontra o episódio dos três fios de cabelo oferecidos a Gimli. À primeira vista, trata-se de uma cena delicada, quase decorativa, quase sem importância no contexto da urgência da Guerra do Anel. Mas, como tantas passagens em Tolkien, ela condensa séculos de história, rivalidades antigas e uma ética sobre poder e posse que atravessa todo o legendarium. Entender a força desse presente exige olhar além do ornamento e reconhecer como, na obra de Tolkien, o detalhe é frequentemente o lugar onde o mito mostra sua maior beleza e força.

A delicadeza que reescreve destinos

No coração de O Senhor dos Anéis, há um gesto aparentemente fugaz em meio a crise apocalíptica da época, mas que carrega o peso de eras. Quando Galadriel presenteia Gimli com três fios de seus cabelos, Tolkien está operando em um registro simbólico que remonta aos dias anteriores ao Sol e à Lua.

A descrição dos cabelos da Senhora de Lothlórien não é um ornamento poético qualquer. Eles refletem a luz das Duas Árvores de Valinor, Laurelin e Telperion, fontes primordiais de iluminação no mundo. Essa luz não é apenas física; ela representa uma ordem anterior à corrupção, a memória da pureza que foi perdida para sempre.


(…) Era dourado como o cabelo de seu pai e de sua ancestral Indis, porém mais rico e mais radiante, pois seu ouro continha alguma lembrança da prata estelar de sua mãe; e os eldar diziam que a luz das Duas Árvores, Laurelin e Telperion, havia sido apanhada em seus cachos.(…) ( Contos Inacabados – A história de Galadriel e Celeborn)

A força desse presente está menos na materialidade do cabelo e mais no que ele simboliza. Tolkien descreve os cabelos de Galadriel como capturando a luz das Duas Árvores de Valinor, Laurelin e Telperion. Não é um detalhe estético; é, quase literalmente, uma herança metafísica. Neles repousa um eco da luz primordial do mundo. Não por acaso, milênios antes, Fëanor, o maior artífice dos Noldor e criador das Silmarils, pedira a Galadriel uma mecha de seus cabelos. Ela recusou. Três vezes, segundo os contos reunidos em Contos Inacabados. A negativa de Galadriel, não vem de um capricho, ela possivelmente percebia em Fëanor a chama de possessividade, a mesma que incendiaria o mundo e que poderia ter condenado todos os elfos.

(…) Muitos pensavam que foi essa expressão que deu primeiro a Fêanor a idéia de aprisionar e misturar a luz das Árvores que mais tarde tomou forma em suas mãos como as Silmarils. Pois Fêanor contemplava o cabelo de Galadriel com maravilha e deleite. Três vezes implorou por um cacho, mas Galadriel não lhe deu nem mesmo um fio de cabelo. Esses dois parentes, os maiores dentre os eldar de Valinor, ficaram sendo inimigos para sempre. (…) (Contos Inacabados – A história de Galadriel e Celeborn)

Quando, então, ela oferece não um, mas três fios a um anão, ser de uma raça com um enorme histórico de desamor mutuo, estamos diante de uma inversão histórica. O que foi negado ao elfo mais brilhante e orgulhoso dos Noldor é concedido a alguém que representa um povo tradicionalmente desconfiado dos elfos e por vezes visto como inferior. O gesto parece ajudar a curar uma ferida antiga.

A cura de uma rivalidade milenar

A relação entre elfos e anões na obra de Tolkien é marcada por desconfiança e ressentimento. Desde os conflitos em Doriath, envolvendo o Nauglamír e as Silmarils, até as tensões precedentes da Guerra do Anel, há uma memória amarga compartilhada. Apesar da crescente amizade de Gimli e Legolas, o anão carrega esse passado quando entra em Lothlórien. Ele o faz com reservas, consciente de estar em território que historicamente não lhe é favorável.

E é aqui que Tolkien realiza um dos movimentos mais elegantes de sua narrativa. Quando questionado qual dadiva lhe poderia ser ofertada em sua jornada com a comitiva do anel, Gimli não pede ouro, não pede armas, não pede poder. Ele pede um único fio de cabelo de Galadriel, para guardá-lo como relíquia.

(…)Não quero nada, Senhora Galadriel — disse Gimli, fazendo uma grande reverência e gaguejando. — Nada, a não ser que talvez… a não ser que seja permitido pedir, não, desejar um único fio de seu cabelo, que ultrapassa o ouro da terra como as estrelas ultrapassam as gemas da mina. Não peço tal presente, mas a Senhora me ordenou que revelasse meu desejo.(…) (A sociedade do anel -Capítulo VIII: Adeus a Lórien)

O pedido é humilde, quase infantil. Ele não deseja possuir; deseja honrar uma beleza e encanto que não pôde sequer explicar. Galadriel responde com três fios, contra as três negativas a Fëanor.

(…)Então a Senhora desfez uma de suas longas tranças e cortou três fios dourados, colocando-os na mão de Gimli. — Estas palavras acompanharão o presente — disse ela. — Não vou predizer, pois todas as predições são vãs nestes tempos: de um lado está a escuridão, e do outro só há esperança. Mas se a esperança não falhar, então digo a você, Gimli, filho de Glóin, que suas mãos vão se encher de ouro e, apesar disso, o ouro não vai dominá-lo. (…) (A sociedade do anel -Capítulo VIII: Adeus a Lórien)

Esse momento redefine não apenas a relação entre dois personagens, mas a memória coletiva de seus povos. A amizade entre Gimli e Legolas já vinha quebrando paradigmas ao longo da jornada. O presente de Galadriel, no limite da aniquilação do mundo, como uma possibilidade de reconciliação real entre culturas que se viam como opostas.

(…)— Guardá-lo-ia como uma relíquia, Senhora — respondeu ele —, em memória das palavras que me disse em nosso primeiro encontro. E se eu algum dia retornar às forjas de minha terra, será colocado num cristal indestrutível, para ser a herança de minha casa e um testemunho de boa vontade entre a Montanha e a Floresta até o fim dos dias.(…) (A sociedade do anel -Capítulo VIII: Adeus a Lórien)

O contraste com Fëanor e o peso da escolha

Para entender plenamente a potência desse episódio, é preciso colocá-lo ao lado da figura de Fëanor. O elfo que forjou as Silmarils via na luz algo a ser capturado, encerrado, possuído. Seu amor pela beleza e o poder da luz tornou-se obsessão, lavando ao exílio dos Noldor, incluindo a própria Galadriel. Quando pediu os cabelos de Galadriel, desejava estudá-los, talvez até recriar aquela luz em suas obras. Galadriel enxergou o que havia por trás do pedido, simples apropriação.

Ao recusar Fëanor, ela afirmou um princípio. A beleza não pode ser arrancada para alimentar vaidades. A luz do mundo não se submete ao ego. Milênios depois, ao atender Gimli, ela reafirma o mesmo princípio sob outra forma. A diferença não está no objeto pedido, mas no coração de quem pede.

Tolkien, que sempre tratou a tentação como um teste de caráter, constrói aqui um paralelo sutil. O mesmo mundo que foi quase destruído pela incapacidade de Fëanor de abrir mão também é salvo por personagens capazes de renunciar. Melkor e Sauron queriam dominar, tomar para si; os heróis da comitiva renunciavam ao poder, a beleza, as suas vidas se necessário, para cumprir seu objetivo: livrar o mundo de uma tirania possessiva.

O anão que foi ao Oeste

O gesto de Galadriel não ficou suspenso no tempo como uma lembrança delicada de Lothlórien. Ele reverbera até o fim da Terceira Era e além. Anos depois da queda de Sauron, quando os Portos Cinzentos recebem aqueles que partem para Aman, uma outra dádiva é dada, Gimli, filho de Glóin, é autorizado a navegar rumo ao Oeste*. Um anão atravessando o Mar que separa o mundo mortal das Terras Imortais é algo que, à luz da história da Terra-média, beira o impossível. O mais plausível de se pensar é que assim como os hobbits, Bilbo, Frodo e Sam, Gimli tenha ido viver em Tol Eressëa entre os elfos.

(…)Mas, quando o rei Elessar entregou sua vida, Legolas seguiu por fim o desejo de seu coração, e navegou atravessando o Mar. Segue-se aqui uma das últimas notas do Livro Vermelho Ouvimos dizer que Legolas levou consigo Gimli, filho de Glóin, por causa de sua grande amizade, maior do que qualquer uma que já houve entre um elfo e um anão. Se isto for verdade, então é realmente estranho: que um anão estivesse disposto a deixar a Terra-média por qualquer amor, e que os eldar o recebessem, ou que os Senhores do Oeste permitissem tal coisa. Mas conta-se que Gimli partiu também movido pelo desejo de rever a beleza de Galadriel; pode ser que ela, sendo poderosa entre os eldar, tenha conseguido tal graça para ele. Não se pode dizer mais nada sobre esse assunto. (…) (O Retorno do Rei. Apêndice A. O Povo de Durin.)

A tradição diz que sua ida foi permitida por intercessão de Legolas e, sobretudo, por causa da graça que lhe fora concedida por Galadriel. O presente dos três fios deixa de ser apenas símbolo de amizade e torna-se reconhecimento espiritual. Não é exagero ler esse desfecho como consequência de um olhar que viu em Gimli a capacidade de amar a beleza sem cobiçá-la, algo que por vezes parece distante do que se imagina a natureza dos anãos. O contraste entre Gimli e Fëanor ecoa até o momento em que lhe é aberta uma rota que nenhum de seu povo havia trilhado, enquanto o elfo foi impedido de retornar dos salões de Mandos.

(…) E seu semblante nunca mais apareceu em Arda; nem seu espírito deixou os palácios de Mandos. Assim terminou o mais poderoso dos noldor, cujos feitos originaram sua maior fama e suas piores desgraças.(…) (O Silmarillion. Da volta dos Noldor)

A travessia para o Oeste reforça que o dom de Galadriel não foi efêmero. Ele não se esgotou na emoção de um encontro ou na diplomacia entre povos. Ao contrário, ele se tornou parte da transformação do próprio destino de Gimli. Tolkien, que raramente concede recompensas fáceis, parece afirmar que a verdadeira nobreza não depende de linhagem ou raça, mas de postura interior. O anão que contemplou a Senhora da Floresta com reverência foi também aquele que pôde contemplar as Terras Imortais. E assim, os três fios de cabelo deixam de ser apenas relíquia e tornam-se prenúncio do seu destino final.

Um gesto que atravessa eras

Há algo de quase sacramental no presente dado ao anão. Gimli promete incrustar os fios em cristal imperecível, não como troféu, mas como memória. Ele transforma o dom em símbolo de devoção. Mais tarde, torna-se Senhor das Cavernas Cintilantes de Aglarond, e é tentador imaginar aquela relíquia guardada como um elo silencioso entre pedra e luz, entre profundezas e estrelas.

Os três fios de cabelo não movem exércitos, não derrubam muralhas, não queimam como as Silmarils. Ainda assim, carregam algo que as joias de Fëanor jamais alcançaram, uma reconciliação que ajudaria a levar ao fim da presença opressora dos senhores do escuro e recuperar a Terra-Média.

Leituras recomendadas:

  • J.R.R. Tolkien, A Sociedade do Anel, capítulo “Adeus a Lórien”.
  • J.R.R. Tolkien, O Silmarillion, capítulos sobre Fëanor e as Silmarils.
  • J.R.R. Tolkien, Contos Inacabados, textos sobre Galadriel e Celeborn.
  • J.R.R. Tolkien, O Senhor dos Anéis, Apêndice A, Parte III — “O Povo de Durin” (para o destino de Gimli após a Guerra do Anel).
  • J.R.R. Tolkien, O Senhor dos Anéis, Apêndice B — “O Conto dos Anos”, entrada da Quarta Era, ano 120 (partida de Legolas e Gimli para o Oeste).

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