Hell Clock, estúdio usa episódio sangrento da história nacional para entregar um dos melhores indies brasileiros.
O estúdio brasileiro Rogue Snail lançou em Julho de 2025 o impressionante Hell Clock, um RPG de ação com elementos roguelike. Ambientado em uma espécie de purgatório infernal, o jogo é entrega uma releitura sombria da Guerra de Canudos, um dos episódios mais trágicos da história do Brasil. O jogador assume o papel de Pajeú, um ex-escravizado e estrategista militar que desce aos confins do inferno em busca da alma de Antônio Conselheiro, líder do movimento de Canudos.
Uma História de Vingança e Redenção

Hell Clock é uma interpretação artística da Guerra de Canudos, ocorrida entre 1896 e 1897 no sertão da Bahia. O jogo transforma esse episódio histórico em uma jornada de vingança e redenção, onde Pajeú busca resgatar a alma de seu mentor, enfrentando os responsáveis pelo massacre de Canudos. Essa abordagem não apenas proporciona uma experiência emocionalmente carregada, mas também promove uma reflexão sobre memória e justiça.
Ao longo de sua jornada, Pajeú enfrenta inimigos que representam figuras históricas e mitológicas, criando uma fusão entre o real e o sobrenatural. Essa mistura enriquece a narrativa, oferecendo ao jogador uma perspectiva única sobre os eventos de Canudos.
A escolha de ambientar o jogo em uma espécie de purgatório, onde as almas dos habitantes de Canudos estão presas, é uma metáfora poderosa para o esquecimento e a injustiça histórica. Essa representação simbólica convida o jogador a refletir sobre a importância da memória coletiva e da busca por justiça. Mas isso sem deixar de esquecer o que torna um jogo… entregando uma jogabilidade muito divertida, diversa e com elementos para se diferenciar de títulos do mesmo gênero.
Descida ao inferno com tempo contado

Inspirado em títulos como Hades e Path of Exile, Hell Clock oferece uma jogabilidade intensa e desafiadora. O jogo combina combate rápido e fluido com mecânicas de roguelite, onde cada morte é uma oportunidade para aprender e evoluir. Um dos elementos centrais é o “Relógio do Inferno”, que impõe uma pressão constante sobre o jogador, tornando cada decisão crucial.
A progressão do personagem é enriquecida por um sistema de construção de builds, permitindo ao jogador personalizar as habilidades e atributos de Pajeú de acordo com seu estilo de jogo. Essa profundidade estratégica aumenta a rejogabilidade (o famoso fator replay) e mantém o interesse ao longo das partidas.
Além disso, o jogo apresenta modos de jogo diferentes como o “Modo Relaxado”, permitindo que jogadores que preferem uma experiência menos desafiadora possam desfrutar da narrativa e do mundo do jogo sem a pressão constante do tempo e um modo hardcore que entre as suas características tem a morte permanente.
Um roguelite de respeito

Como comentado no paragrafo anterior, o game se trata de uma leve mistura entre um ARPG e um roguelike/lite padrão, em que seu diferencial é que as runs são pautadas não apenas pela derrota, mas por um limitador de tempo. Após o final de cada rodada, somos enviados para a área central do jogo, de onde recomeçaremos.
Nessa área central, podemos evoluir Pajeú, mudar suas habilidades e o equipar com itens de modo que é possível não só aprimorar seus status, como aumentar o limite do Hell Clock. E sem dúvidas é muito divertido e satisfatório testar diversas builds e esquemas de habilidades para trucidar as imensas hordas de inimigos.
E se há um ponto negativo a ressaltar é que há alguns problemas de performance em determinadas áreas mais avençadas do jogo, onde a quantidade de monstros parece pesar. Mas isso não é uma falha brutal, pois não chega a atrapalhar a gameplay em geral, sendo um dos jogos brasileiros mais bem polidos que joguei nos últimos tempos.
Uma Imersão Cultural

A direção de arte de Hell Clock é um dos seus maiores destaques. O jogo apresenta um estilo visual que mescla elementos sombrios do inferno com referências ao sertão nordestino, criando uma atmosfera única e imersiva: as áreas do jogo são diversas, de masmorras cheias de condenados, desertos cheios de criaturas carniceiras infernais, entre outros, também conversam muito bem com a temática proposta pelo time de desenvolvimento. A diversidade de áreas e criaturas dá a impressão de uma descido aos círculos infernais.
A trilha sonora, composta por Thommaz Kauffmann, é outro ponto alto. Composta por melodias que evocam a cultura nordestina junto ao clima de terrpr e abandono, a música complementa perfeitamente a ambientação do jogo, intensificando as emoções transmitidas pela narrativa e pelo gameplay. E a escolha de atores nordestinos para dublar os personagens também contribui para a autenticidade cultural do jogo, proporcionando uma experiência mais rica e conectada às raízes brasileiras.
Representação da história brasileira

Hell Clock se destaca por sua abordagem autêntica ao retratar a Guerra de Canudos. Em vez de uma simples adaptação histórica, o jogo oferece uma interpretação artística que respeita e homenageia os eventos e personagens reais. A inclusão de elementos culturais e históricos brasileiros enriquece a experiência, proporcionando ao jogador uma compreensão mais profunda desse capítulo sombrio da história nacional.
A escolha de ambientar o jogo em uma espécie de purgatório, onde as almas dos habitantes de Canudos estão presas, é uma metáfora poderosa para o esquecimento e a injustiça histórica. Essa representação simbólica convida o jogador a refletir sobre a importância da memória coletiva e da busca por justiça.
Com esse título a Rogue Snail coloca, de forma irreverente, um evento histórico brasileiro no mapa de gamers do mundo inteiro e ensina como inserir elementos de identidade nacional em um jogo da forma correta. Algo que muitos desenvolvedores do país precisam aprender.
Um marco para os jogos Brasileiros
Hell Clock é uma obra-prima do estúdio Rogue Snail que combina maestria técnica com uma narrativa profunda e culturalmente rica. Ao transformar a Guerra de Canudos em uma experiência de jogo envolvente, o título não apenas entretem, mas também traz reflexões e emociona. É um exemplo brilhante de uso da história brasileira e do potencial dos jogos da indústria nacional e uma contribuição significativa para a indústria global de games. O jogo da Rogue Snail está entre os títulos brasileiros mais bem polidos, divertidos e interessantes que aproveitei nos últimos tempos.




